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Trapaça de risco


13/04/2017Artigos

O uso de anabolizantes além de imoral pode levar a diversas complicações na saúde


 Aos 34 anos Yelena Isinbayeva, atleta russa e bicampeã olímpica no salto com vara, teve seus planos de encerrar a carreira nos Jogos Olímpicos Rio 2016 destruídos. Após o vazamento de um esquema para esconder o doping de atletas russos, a Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF, em inglês) e o Comitê Olímpico Internacional (COI) optaram por banir a delegação de Atletismo e toda a delegação Paralímpica da Rússia dos eventos olímpicos no Rio de Janeiro.

Mesmo sem envolvimento comprovado, Isimbayeva ficou impedida de buscar sua quarta medalha olímpica, anunciando a aposentadoria das pistas durante os jogos. A punição mais severa foi dada aos 267 atletas paralímpicos russos banidos dos Jogos Paralímpicos Rio 2016. Tanto Yelena, quanto os demais atletas russos impedidos de competir, foram punidos por uma prática que, infelizmente, é comum no esporte de alto rendimento: o uso de anabolizantes.

Os anabolizantes, ou esteroides anabólicos, são substâncias hormonais feitas a base de lipídios que promovem o anabolismo. Seu uso é variado, podendo ser indicado para tratamento de doenças como hipogonadismo, osteoporose e na recuperação de grandes queimados. Mas seu efeito mais conhecido é a construção de tecidos e ganho de massa muscular.

O Fisiologista Gustavo Brandão [CREF 004955-G/PR] explica porque o uso das substâncias por atletas é mal vista. “Toda substância que proporciona ganho para as células é considerada anabolizante, mas no geral relacionamos anabolizantes com esteroides anabólicos, que são substâncias hormonais formados a base de gordura. Neste caso o principal é o hormônio testosterona, que age para melhorar a performance aumentando a massa, força e potência muscular. Em exercício físico que exija mais força e velocidade, níveis mais altos de testosterona aumentam o desempenho”.

Além de servirem como forma de trapaça para atletas de alto nível, os anabolizantes representam um perigo bem maior que a falta de ética. A ingestão destes medicamentos pode desenvolver perigos a saúde do usuário. A médica especialista em Endocrinologia e Metabologia, Dra. Daniele Zanelli, destaca que o uso destas substâncias pode levar a morte. “As consequências à saúde física e psicológica são as mais variadas e não se limitam ao uso dos esteroides anabolizantes. Não é incomum que o uso de hormônios venha acompanhado de um verdadeiro coquetel farmacológico, incluindo outros agentes anabólicos, estimulantes, analgésicos, diuréticos, suplementos nutricionais, e até medicamentos para emagrecer. O resultado dessas interações é imprevisível e pode levar à lesão de múltiplos órgãos, desencadear ou acelerar o crescimento de tumores malignos, culminando, algumas vezes, com a morte de indivíduos jovens, previamente saudáveis”.

O uso destas substâncias não fica restrita aos atletas de alto rendimento. Cada vez mais os anabolizantes têm conquistado espaço entre pessoas que buscam melhoras estéticas através da atividade física. O culto ao corpo vem fazendo com que muitas pessoas busquem esses perigosos atalhos para o ganho de massa muscular e perda de peso.

Por serem medicamentos, muitos indivíduos acreditam que o uso não acarreta perigos. “O uso de anabolizantes sempre tem riscos, mesmo quando orientado por médicos. Até mesmo nos casos em que existe indicação clínica específica, onde as doses são muito mais baixas que as usadas por atletas ou nas academias. O que quero dizer é que mesmo com doses baixas de substâncias aparentemente ‘inofensivas’ haverá uma parcela de pacientes que poderá apresentar complicações”, explica Dra. Danieli.

Mesmo com muita informação sobre os riscos do uso dos anabolizantes circulando, o consumo segue sendo difundido por leigos. Para Gustavo, o Profissional de Educação Física deve ser contrário o uso de substâncias que possam causar mal a saúde para obter ganhos em atividades físicas. “Com tantos efeitos deletérios, o uso de qualquer substância anabolizante com objetivo de melhorar o rendimento esportivo deve ser desestimulado por todos os profissionais”, destaca.

Perigo a um click de distância

Não é muito difícil encontrar informação sobre o uso de anabolizantes e ciclos de ingestão. Bastam poucos cliques em sites de pesquisa para ser direcionado a uma imensa variedade de sites e fóruns discutindo o uso das substâncias em treinos. Os mesmos poucos cliques também direcionam a sites especializados no comércio de esteroides anabólicos.

A legislação brasileira regula a venda de anabolizantes obrigando a apresentação de receita médica para a aquisição, ainda assim é possível encomendar os anabólicos através de sites especializados e receber na porta de casa. A mesma coisa acontece nas redes sociais, onde perfis oferecem o medicamento livremente em grupos e comunidades que discutem o uso de esteroides.

A compra de anabólicos fora de farmácias, de manipulação e comuns, oferecem grandes riscos aos consumidores de esteroides. Além da procedência duvidosa, esses produtos podem conter substâncias nocivas e muitas vezes proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Para Dra. Débora, os riscos não param aí, “Os riscos são inúmeros. Alguns produtos de uso veterinário podem acabar sendo desviados para uso humano, também existem o risco de contaminação no preparo sem as mínimas condições de higiene, risco de intoxicação por substâncias como vitaminas ou substâncias farmacêuticas proibidas, e a possibilidade de falsificação ou mistura com substâncias tóxicas, como arsênico”.

A combinação entre produtos de procedência duvidosa e as “receitas” de utilização difundidas entre os usuários podem ser fatais. O mais comum é a sugestão de ciclos onde se consomem diversos anabolizantes ao mesmo tempo – conhecidos como empilhamento; ou de forma crescente e decrescente – conhecidos como pirâmide. As duas formas são difundidas de maneira empírica, baseada nas experiências de consumo de cada indivíduo, e combinam outras drogas para potencializar os efeitos hormonais, podendo desencadear reações agudas graves com risco de disfunção de múltiplos órgãos e morte.

Para evitar esses riscos, cabe ao Profissional de Educação Física desencorajar o uso destes medicamentos, explicando seus riscos e mostrando que é possível alcançar os objetivos sem o uso destes. Gustavo Brandão explica que com o auxílio de um Profissional de Educação Física é possível fazer atividades físicas de forma segura. “Sempre o melhor caminho para a prática de qualquer exercício físico é com acompanhamento de um profissional de Educação Física registrado no CONFEF/CREF’s e capacitado. Assim o indivíduo poderá ter segurança na sua atividade física regular”, completa.