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Paraná Saudável | Prevenção e controle da obesidade devem começar na escola


13/02/2019Artigos

Artigo foi escrito pelo profissional Dartagnan Pinto Guedes e publicado no Boletim do CREF9/PR #40


Com tanta informação circulante, parece haver certa consciência sobre a importância da adoção de novos hábitos para prevenir e controlar a obesidade. As pesquisas mostram que o adulto brasileiro está consumindo mais frutas e hortaliças, que reduziu o consumo de refrigerantes e que pratica mais atividade física no lazer. Mas os números revelam o contrário e assustam os profissionais de saúde. A obesidade avançou 60% na última década, pulando de 11,8% em 2006 para 18,9% em 2016, segundo Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel). 

Hábitos alimentares inadequados e a falta de uma prática regular de atividade física têm impactado não apenas no aumento da obesidade, mas também na prevalência de diabetes e hipertensão. Os números da pesquisa Vigitel 2016 apontam para um aumento em 61,8% de diabéticos e 14,2% de hipertensos no país. 

Parece exagero mas mais da metade da população está acima do peso recomendado e 18,9% dos brasileiros são obesos. A questão é que o problema vem começando cada vez mais cedo. A crescente prevalência de sobrepeso em crianças e jovens revela a urgência de programas de intervenção educacional, direcionados à promoção da prática de atividade física e de hábitos dietéticos adequados, um campo em que o profissional de Educação Física está diretamente envolvido.

Segundo o londrinense Dartagnan Pinto Guedes (CREF 000870-G/PR) , escritor, cientista, doutor em Educação Física e líder do Grupo de Estudos e Pesquisa em Atividade Física Relacionada à Saúde, esse excesso de peso corporal em idade jovem tem se constituído em importante fator de preocupação na área de saúde pública por conta das implicações envolvidas. “Primeiro, porque o excesso de peso corporal nos jovens aumenta o risco dos adultos também apresentarem sobrepeso ou obesidade. Segundo, em razão do sobrepeso e da obesidade em idade jovem estarem associados ao aparecimento e desenvolvimento de fatores de risco que podem predispor à maior incidência de condições crônicas, como diabetes, hipertensão, cardiopatias, além de desfechos de ordem ortopédica, hepáticas e psicoemocionais.

Terceiro, em consequência do sobrepeso e da obesidade resultarem de comportamentos e hábitos inadequados quanto à alimentação e à prática de atividade física incorporados na infância e na adolescência de difícil modificação em idades futuras”, aponta o especialista.

Guedes explica ainda, que, o excesso de peso corporal nos jovens não é somente uma questão de saúde pública: “Refere-se também ao bem-estar individual e da comunidade, à proteção do ambiente e, sobretudo, representa um investimento nas gerações futuras”, afirmou.

ATENÇÃO AO ALEITAMENTO MATERNO

O excesso de peso corporal nos primeiros anos de vida resulta de uma estreita interação entre transmissibilidade genética e comportamento adotado pelos pais na oferta dos alimentos para a criança. Desse modo, de acordo com Dartagnan Pinto Guedes, assume-se o pressuposto de que o componente genético e os hábitos alimentares e de prática da atividade física/exercício físico da mãe durante a gestação podem, eventualmente, contribuir para o aparecimento e o desenvolvimento da obesidade infantil. “Contudo, estudos com delineamentos muito bem elaborados mostram que o tipo/qualidade dos alimentos oferecidos para criança nos primeiros anos de vida desempenha papel preponderante. Por exemplo, crianças que não recebem aleitamento materno podem triplicar as chances de apresentarem sobrepeso ou serem obesas na idade escolar. Por outro lado, em cada grupo de 10 crianças alimentadas exclusivamente mediante aleitamento materno até o sexto mês de vida, somente uma apresenta alguma probabilidade de ter excesso de peso corporal na adolescência”, pontuou.

EDUCAÇÃO DEVE COMEÇAR NA SALA DE AULA 

Para o professor Dartagnan Pinto Guedes, ações de prevenção, combate e controle do sobrepeso e da obesidade em idade jovem devem privilegiar medidas educativas direcionadas à manutenção efetiva do peso corporal saudável. Ele foi coordenador da primeira fase do Programa Paraná Saudável, em 2013, iniciativa focada nos estudantes paranaenses. 

O programa coordenou um levantamento epidemiológico em todo o estado, envolvendo escolas do ensino infantil ao ensino médio e seus respectivos familiares sobre a prevalência de sobrepeso e obesidade e fatores associados relacionados aos hábitos alimentares e de prática de atividade física/exercício físico, com especial atenção para o cotidiano escolar e familiar. Essa pesquisa envolveu 17 mil alunos, com idade entre 4 e 20 anos, de 305 escolas, 94 municípios dos 32 Núcleos Regionais de Ensino do Estado. O levantamento mostrou que 22,9% tinham sobrepeso e 7% eram obesos. Guedes explica que o levantamento realizado identificou uma série de fatores associados ao sobrepeso e à obesidade dos jovens paranaenses. 

No que se referem aos indicadores familiares, aqueles jovens que são filhos únicos e de famílias de elevado nível de escolaridade apresentaram, respectivamente, 92% e 82% mais chance de apresentar sobrepeso. Apontou ainda que famílias de classe econômica mais alta apresentaram o dobro de chance de ter filhos com excesso de peso corporal, e que jovens que permaneciam mais de 2 horas/dia frente à “tela” (TV, computador, vídeo game, tablet e smartphone) apresentaram risco duas vezes e meia maior de ter sobrepeso. 

“Por outro lado, jovens que relataram consumir frutas diariamente apresentaram proteção ao aparecimento de sobrepeso duas vezes maior que seus pais que não tinham esse hábito alimentar, ao passo que, consumir alimentos comercializados na cantina das escolas aumentou em 88% a chance de apresentar sobrepeso, ou seja, maior que beber refrigerante diariamente (71%) ou consumir alimentos de fast foods pelo menos uma vez por semana (69%)”, diz Guedes. 

Portanto, em se tratando de população escolar, professores e gestores educacionais estão em posição privilegiada para auxiliar na implementação das ações de intervenção. “Os programas de ensino oferecidos pelas nossas escolas é um momento formal em que quase a totalidade das crianças e dos adolescentes tem a oportunidade de participar integralmente de intervenções educativas direcionadas à educação em saúde. Em sendo assim, torna-se possível a abordagem de um universo de informações e experiências voltadas à aquisição e à incorporação de hábitos saudáveis quanto à alimentação e à prática de atividade física/exercício físico, que possam ser adotados na idade jovem, e transferidos para os anos além do período de escolarização”, pontua o especialista. 

Através do Programa Paraná Saudável foi elaborado um Guia para Professores direcionados à Prevenção e ao Controle do Sobrepeso e da Obesidade em Escolas, com finalidade de homogeneizar ações e facilitar a abordagem de enfrentamento deste desfecho na população escolar do Estado do Paraná. Há dois meses foi anunciada a terceira fase do programa, onde será feita a distribuição de folders e cartazes da campanha sobre alimentação e atividade física, além da apresentação dos manuais do projeto em eventos, atividades escolares e quadras de esporte.