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Muito além do Ouro


02/04/2017Artigos

A educação física tem ajudado, através do esporte, na inclusão de pessoas com deficiências físicas e intelectuais, buscando melhor qualidade de vida e desempenho esportivo. Por Lucas Matos


Quando as equipes de Goalball e Futebol 7 subiam ao pódio para a execução do hino nacional brasileiro em Toronto no dia 15 de agosto, eles sabiam que haviam feito história. As duas medalhas de ouro encerraram a melhor participação Brasil nos Jogos Parapan-americanos. Foram 257 medalhas (109 de ouro, 74 de prata e outras 74 de bronze) que reforçam a potência que é o Brasil no paradesporto.

A influência do crescimento da pratica esportiva por pessoas com deficiências físicas e intelectuais vai além do grande desempenho brasileiro em competições internacionais. Trata-se também da busca por melhor qualidade de vida e saúde, melhor convivência com a deficiência e da facilidade que o esporte tem em aproximar indivíduos e ajudar na inclusão social.

Esse processo tem como protagonista a Educação Física. Cabe aos profissionais auxiliarem essas pessoas com adaptações de treinos e práticas esportivas, e incentivos para que consigam romper as barreiras e entender como lidar com a deficiência no dia a dia, tornando o paradesporto um grande campo de atuação para profissionais de educação física.

Para o professor Décio Calegari, um dos criadores do handebol em cadeiras de roda, o mercado de trabalho oferece muitas oportunidades aos profissionais que voltam seus esforços para a pratica de desporto adaptado. O capital social da inclusão de pessoas deficientes é um dos principais fatores que impulsionam o crescimento da área. “Nós temos um mercado de trabalho muito amplo na área de desporto adaptado, porque é uma área com muita visibilidade social, os projetos têm muita repercussão da mídia. Onde você tem iniciativa os resultados aparecem”, ressalta Décio.

 A possibilidade de iniciar seu próprio projeto esportivo é uma das grandes vantagens para os profissionais que buscam se inserir no mercado das práticas paradesportivas. Leis como a nº 11.438/2006, a “Lei de Incentivo ao Esporte”, e parcerias com prefeituras, universidades e iniciativa privada permitem que profissionais de educação física desenvolvam atividades de cunho educacional, participativo ou de rendimento com deficientes.

Foi nas raias da piscina que a professora Eliana Pereira viu a oportunidade de trabalhar com deficientes intelectuais. Vendo a capacidade de adaptação de crianças com deficiência, Eliana criou o Projeto Ampliar oferecendo treinos a deficientes na comunidade.

Hoje com mais de 10 anos de atuação e cerca de 90 participantes, o projeto tem apoio do Centro Universitário Autônomo do Brasil (UniBrasil) e faz parte do programa de estágio do curso de Educação Física da instituição, como projeto de extensão.

O crescimento do projeto é resultado da filosofia aplicada por Eliana no treinamento de seus atletas. “É preciso acreditar no potencial deles. Eu acredito na capacidade, não na incapacidade, da pessoa com deficiência. A gente fala sempre da qualidade do trabalho com eles. A principal missão do projeto é o desenvolvimento dessas crianças”, explica Eliana.

Paradesporto de alto rendimento

Buscar as melhores marcas e resultados em esportes adaptados exige muito trabalho, esforço e suor. É essencial que os profissionais de Educação Física estejam preparados para lidar com diversas formas de deficiência e adaptação de treinamentos.

Mesmo com as diferentes condições colocadas pelas deficiências, as estratégias de trabalho adotadas pelos profissionais são as mesmas. Segundo Décio Calegari é necessária a mesma seriedade do esporte regular, “O treinador precisa entender a fisiologia da deficiência. A estratégia de trabalho é a mesma. O deficiente não precisa de pena, precisa de oportunidade. O treinamento é puxado, lógico, é necessário um cuidado com as condições que a deficiência dele determina”.

Os fatores psicológicos também têm de ser trabalhados pelos profissionais. Muitas vezes a autoestima baixa ou a falta de motivação interferem em como retirar o rendimento dos atletas. Este fator é ainda mais importante para trabalhar com crianças com deficiência intelectual. “Tenho que trabalhar a motivação para que ele [o deficiente intelectual] não perca o foco”, completa Eliana.

Outro grande desafio para a busca do alto rendimento no paradesporto é a entrada tardia dos atletas, os resultados surgem com a repetição dos treinamentos e a motivação gerada por competições. O início das práticas esportivas em idades mais avançadas acaba atrasando esse processo.

Apesar da busca pelos resultados, o paradesporto possui o foco da saúde e da superação. Para Décio é importante entender os limites de cada atleta, “O esporte surge para pessoa com deficiência como uma forma de reabilitação, nós nem queremos que exista essa exacerbação do treinamento aconteça dentro do esporte adaptado. Tem um limite, e esse limite é a capacidade que o indivíduo tem em ter saúde”.